A MPB e a Censura na Ditadura

QUISERAM CALAR A MÚSICA

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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Chico Buarque e Crítica à Ditadura





Ameaçado pelo Regime Militar no Brasil, esteve exilado na Itália em 1969, onde chegou a fazer espetáculos com Toquinho. Nessa época criou suas canções "Apesar de você" (que dizem ser uma alusão negativa ao presidente Emílio Garrastazu Médici, mas que Chico sustenta ser em referência à situação) e Cálice, censuradas pela censura brasileira. Adotou o pseudônimo de Julinho da Adelaide, com o qual compôs apenas três canções: "Milagre Brasileiro", "Acorda amor" e "Jorge Maravilha". 


Na Itália Chico tornou-se amigo do cantor Lúcio Dalla, de quem fez a belíssima "Minha História", versão em português (1970) da canção Gesú Bambino (título verdadeiro 4 marzo 1943), de Lucio Dalla e Paola Palotino.

Ao voltar ao Brasil, continuou com composições que denunciavam aspectos sociais, econômicos e culturais, como a célebre "Construção" ou a divertida "Partido Alto". Apresentou-se com Caetano Veloso (que também foi exilado, mas na Inglaterra) e Maria Bethânia. Teve outra de suas músicas associada a críticas a um presidente do Brasil. Julinho da Adelaide, aliás, não era só um pseudônimo, mas sim a forma que o compositor encontrou para driblar a censura, então implacável ao perceber seu nome nos créditos de uma música. Para completar a farsa e dar-lhe ares de veracidade, Julinho da Adelaide chegou a ter cédula de identidade e até mesmo a conceder entrevista a um jornal da época.

Uma das canções de Chico Buarque que criticam a ditadura é uma carta em forma de música, uma carta musicada que ele fez em homenagem ao Augusto Boal, onde  vivia , na época em que o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar.

A canção se chama "Meu Caro Amigo" e foi dirigida a Boal, que na época estava exilado em Lisboa. A canção foi lançada originalmente num disco de título quase igual, chamado Meus Caros Amigos, do ano de 1976

Meu caro amigo 
Chico Buarque
Meu caro amigo me perdoe, por favor 
Se eu não lhe faço uma visita 
Mas como agora apareceu um portador 
Mando notícias nessa fita

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita mutreta pra levar a situação 
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça 
E a gente vai tomando e também sem a cachaça 
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar 
Nem atiçar suas saudades 
Mas acontece que não posso me furtar 
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

É pirueta pra cavar o ganha-pão 
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro 
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro 
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu quis até telefonar 
Mas a tarifa não tem graça 
Eu ando aflito pra fazer você ficar 
A par de tudo que se passa

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita careta pra engolir a transação 
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho 
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho 
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever 
Mas o correio andou arisco 
Se me permitem, vou tentar lhe remeter 
Notícias frescas nesse disco

Aqui na terra tão jogando futebol 
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll 
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

A Marieta manda um beijo para os seus 
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças 
O Francis aproveita pra também mandar lembranças 
A todo o pessoal 
Adeus

Composição: Chico Buarque / Francis Hime

Essa foi uma das canções que Chico Buarque fez na ditadura. Ela é uma carta em forma de música e foi composta para o seu amigo Augusto Boal, um dos maiores dramaturgos brasileiros, quando esse estava exilado em Lisboa, Portugal. Nela, Chico retrata a situação em que se encontrava o Brasil, sob a pressão da ditadura militar. A canção foi originalmente num disc o de título quase igual, chamado Meus Caros Amigos, do ano de 1976
O poema mostra algumas características do que o povo brasileiro costumava fazer durante a época da Ditadura Militar, em especial o autor (achei interessante, pois o poema é um tipo de 'carta' pra alguém que está fora do país).
A música retrata o sentimento que as pessoas tinham em relação ao governo da época, muito censura e intolerância reinavam no momento da ditadura. Ninguém se manifestava do modo que Chico se manifestou, ninguém tinha audácia de se pôr contra o governo.
Creio que o Chico, como tantos que a gente conhece desta geração, mais do que envelhecerem, se desiludiram.
Nossa geração viu praticamente todas as democracias políticas de países latinos viveram regimes de direita e de esquerda. E os resultados de tantas variantes foram similares: sendo oposição, o sucessor tenta denegrir o passado e fazer tudo ao contrário. Basta trocar o governo e a história se repete, ao revés, como diz o tango.
A gente não perdeu o bonde da história, não. Ela é que se repete.
Filho de Sérgio Buarque de Holanda, um importante historiador e jornalista brasileiro e de Maria Amélia Cesário Alvim. 

Em 1946, passou a morar em São Paulo, onde o pai assumira a direção do Museu do Ipiranga. Sempre revelou interesses pela música - interesse que foi bastante reforçado pela convivência com intelectuais como 
Vinicius de Moraes e Paulo Vanzolini. 

Em 1953, Sérgio Buarque de Holanda foi convidado para lecionar na Universidade de Roma, consequentemente, a família muda-se para a Itália. Chico torna-se trilingüe, na escola fala inglês, e nas ruas, italiano. Nessa época, suas primeiras "marchinhas de carnaval" são compostas, e, com as irmãs mais novas, Piiizinha, Cristina e Ana, encenadas. 



De volta ao Brasil, produz suas primeiras crônicas no jornal Verbâmidas, do Colégio Santa Cruz, nome criado por ele. Sua primeira aparição na imprensa não foi cultural, mas policial, publicada, inclusive, no jornal Última Hora, de São Paulo. Com um amigo, furtou um carro para passear pela madrugada paulista, algo relativamente comum na época. Foi preso. "Pivetes furtaram um carro: presos" foi a manchete no dia seguinte com uma a foto de dois menores com tarjas pretas nos olhos. Chico não pôde mais sair sozinho à noite até que completasse 18 anos.

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